FIM DE ANO
( Marcos Assumpção)
O ano de 2009 chegou ao fim, e como disse certa vez John Lennon , “ o que você fez?” Esta época é quando analisamos tudo que fizemos ou deixamos de fazer, pelo menos deveríamos fazê-lo. Alguns choraram , outros riram, realizações para alguns, frustrações para outros. É assim a vida. Mas acima de tudo devemos ter esperança, acreditar que as coisas podem e vão melhorar. Acho que a esperança é aquilo que o mundo mais precisa. Devemos, apesar de tudo, agradecer pelo que conquistamos, e não só pedir, afinal, não existe conquista maior do que estar vivo. Esta é a melhor época pra se redimir de erros, sejam eles cometidos durante este ano ou há tempos passados... nunca é tarde pra pedir desculpas, e até mesmo ceder nas situações em que o errado é o outro... não existe melhor gesto de grandeza e nobreza. Natal é isso, tempo de paz, redenção, tempo de pensar.... adoro esta época, mais ainda o Natal, enfeites de Papai Noel, luzes coloridas, músicas natalinas. É a hora da renovação, de olhar o mundo diferente, de enxergar a vida e descobrir que ela é a maior riqueza que possuímos. Viver vale a pena, apesar das dores que a vida nos tráz... faz parte, mas a dor passa, ou melhor, ameniza, porque a vida também nos tráz alegrias, vitórias, sorrisos de filhos, afagos de mãe e principalmente esperança . Sim , viver vale muito a pena, até porque a vida é rápida e não podemos perder tempo cultivando desafetos . Nobre aquele que desejar Feliz Ano Novo ao seu maior desafeto. Deixemos de lado orgulhos e feridas.. pelo menos podemos tentar. A todos que passaram por aqui em 2009, que acompanharam o que fiz este ano, que estão sempre carinhosamente ligados à mim, um Feliz 2010, com muita paz , amor e esperança, e a certeza de que continuaremos ligados pela música, poesia e arte por muitos anos ainda, se assim tiver que ser.
NOTICIAS DO DVD, FLORBELA E SHOWS
( Marcos Assumpção)
Oi gente,
Bem, como disse antes, dia 26 de Setembro gravamos o dvd SALA DE ESTAR aqui no Rio de Janeiro. Esta semana começamos a editar as primeiras imagens e os primeiros áudios. É trabalhoso, vamos levar uns dois meses editando tudo até mandar pra fábrica, por isso ainda não tem uma data prevista para o lançamento, que deve acontecer até Março, acredito. Neste dvd, o primeiro de minha carreira, gravei músicas importantes na minha vida, que cantava bem no início, na sala de estar da casa de meus pais , avós, amigos, enfim, em reuniões intimistas . Fizemos um clima bem dentro desta realidade, estavam presentes lá amigos, familiares, profissionais de imprensa e alguns representantes do meu fã-clube, pra dar este clima de intimidade e proximidade. Infelizmente não foi possível a presença de muitos pois o espaço era pequeno, mas ficou super legal, descontraído, as pessoas sentadas a minha volta, bem sala de estar mesmo. Agradeço a presença de todos que lá estiveram e dos que se manifestaram em ir mas por outros motivos não estiveram presentes, mas que torceram por mim, tenho certeza. Só pra lembrar, gravei três do Chico Buarque, duas do Belchior, Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Almir Sater e Renato Teixeira, Paulinho Pedra Azul , duas inéditas minhas e algumas de outros discos meus.
Quanto ao cd A FLOR DE FLORBELA, venho recebendo muitas críticas favoráveis da imprensa e mídia de modo geral, algumas delas estão disponíveis no meu site pra vocês verem, no link CLIPPING. Estou muito feliz com este resultado, é sem dúvida , de todos os trabalhos que fiz até agora , o que mais gosto . Consegui achar na poesia de Florbela uma relação intensa e próxima com o que gosto de trazer para o meu trabalho, até do que gosto de escrever, e procurei compor as melodias obedecendo ao clima e atmosfera que ela queria traduzir. Assim entendi os 17 sonetos que musiquei neste disco.
Continuo fazendo o show de Florbela, já tenho alguns agendados até Março de 2010, e acho que é um show/disco atemporal, sem prazo pra terminar, que vai amadurecendo a cada dia sem interferir em um outro trabalho paralelo, que é o SALA DE ESTAR que vou lançar ano que vem.
É isso, vou dando noticias aqui do que anda acontecendo comigo . Beijos e abraços a todos.
O AZUL E O CASTANHO
( Marcos Assumpção)
Muito tempo já passou
Mas teu azul não esqueci
Muito vento então soprou
Pra tocar a vida aqui
Tocar a vida sem você
Feito pescador sem mar
Feito poeta que não lê
Vendo o mundo desabar
Ainda guardo na lembrança
Teu diário de espiral
Nossas brincadeiras de criança
E os presentes de Natal
Meu mundo agora é estrada
Teu personagem é imortal
Ainda lembro a gargalhada
Tua dança e nosso quintal
Outro azul chegou pra mim
E eu achei que era você
Mas num sonho me disse no fim
Que o novo azul era pra crescer
À minha sombra e ao teu gesto
Teu amor representado ali
Tua dança é o puro manifesto
De quem nunca saiu daqui
Depois de outros ventos
Gaivota então voltou
Riscou o céu com alentos
Do castanho que gerou
À mesma sombra e ao mesmo amor
Que um dia conheci
Já não sinto a mesma dor
Choro pelas lembranças que vivi
O quintal e o azul piscina
Hoje já não posso alcançar
Mas do infinito me ensina
ao novo azul e ao castanho embalar
Muito tempo já passou
Muito vento já soprou
Muito amor em mim ficou
Muito amor em mim brotou
DVD “SALA DE ESTAR”
( Marcos Assumpção)
Oi gente,
Bem, primeiro , desculpas pelo sumiço aqui do blog mas ando correndo demais como Roberto Carlos disse em uma canção sua.
Enfim, dia 26 de Setembro estaremos gravando o dvd ‘SALA DE ESTAR” aonde vou cantar musicas importantes na minha vida que cantava nas rodas de violão que meu pai fazia ora na sala de nossa casa, da casa de meus avós , na de amigos... ou seja, aquela intimidade bacana , que trago hoje para os meus shows, a proximidade com o público... são músicas que nunca se afastaram de mim e que agora resolvi gravar neste primeiro dvd, contando um pouco da minha história, de como essas canções foram e são importantes para mim. Vou cantar músicas de Chico Buarque, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Fagner, Belchior( todos representantes da música do Nordeste, muito forte e presente no meu trabalho) , de Paulinho Pedra Azul (representando a música mineira de primeiríssima qualidade), Renato Teixeira, Almir Sater ( reverenciando as violas caipiras que tanto adoro), além de músicas de meus discos anteriores e duas inéditas : Jardins de Cor , que já toca em algumas rádios há algum tempo, e Colo , esta em parceria com Paulo Delfino. Para caracterizar essa relação de proximidade e intimidade, serão 15 convidados presentes ( infelizmente o estúdio não cabe mais que isso), entre eles familiares, amigos, profissionais de imprensa e alguns fãs, o que muito me orgulha. Comigo no palco, ou melhor, na sala de estar, estarão Francisco Falcon tocando baixolão e baixo vertical com arco; Daniel Santana nos violões de aço, nylon, 12 cordas, dobro e bandolim; Marcio Costa no piano acústico; Alexandre”Bebeto” Mangeon nos violões de aço, nylon e viola caipira de 10 cordas; Rogério Mesquita na flauta e gaita; Leandro Maia no cajon, pratos, vasssourinha , block ; Carlos Poubel nas congas, triângulo, ritmo nordestino e instrumentos percussivos ; e eu , com o violão de aço e a viola de 12 cordas.
Ensaiamos bastante, acho que tá legal, ou melhor, tenho certeza , espero que vocês gostem , porque neste primeiro dvd tô contando como tudo teve início , como a música entrou na minha vida. Claro que algumas ficaram de fora, mas gravarei em discos futuros sempre lembrando daquelas reuniões e amigos , da intimidade, de poder cantar aquilo que você mais quer, das pessoas maravilhosas que conheci naquela época, músicos, poetas, cantores, todos fundamentais pra mim. Até.
VIDA DE ARTISTA
( Marcos Assumpção)
Acabamos de chegar de uma turnê de 4 shows pelo interior de São Paulo.
Fizemos 4 Festivais de Inverno no Circuito das Aguas do interior Paulista. Foi legal, muito frio e chuva. Cada dia um lugar diferente, estrada, hotel, passagem de som, mas valeu à pena. Sempre vale. A primeira cidade foi Águas de Lindóia, show em praça pública debaixo de chuva, mas o público correspondeu. Estávamos eu , Daniel Santana , Francisco Falcon e Thiago de roaldie. Tocamos algumas canções do cd A FLOR DE FLORBELA, coisas novas, coisas mais antigas, arranjos novos, experiências novas em músicas antigas. Acabamos o show por volta das 23 horas, saímos bem depressa porque iríamos para outra cidade ainda naquela noite, já que a produção local nos hospedou em outra cidade. Vida de artista. Estrada tarde da noite, muita chuva, neblina e frio, mas vale à pena, sempre vale. A segunda cidade, Socorro, não menos fria nem chuvosa. Show transferido da praça pública para o teatro local. A resposta foi boa, muito boa aliás, voltamos 3 vezes pro bis. Depois do show, jantar com produtores locais e bate papo com algumas pessoas que estavam no show até 3 da manhã. No outro dia, Monte Alegre do Sul, a terceira e mais fria cidade de todas. Foi muito legal também, pessoas de longe estavam presentes, um fã que se tornou amigo viajou de São José dos Campos até lá pra assistir ao show. Saímos de madrugada pra pousada, fazia bastante frio, mas valeu à pena... a quarta e última cidade era Serra Negra, show na praça gelada e pouca chuva, público dividido, alguns animados outros com frio, assim como nós. Fim de show, jantar e hotel pra saírmos cedo no outro dia e voltar pro Rio, pelo menos 7 horas de estrada. Vida de artista, vida que vale à pena, sempre vale, apesar do resfriado que pegamos. Até a próxima turnê, com frio, sol, chuva ou calor.
METRÔ
( Marcos Assumpção)
Pelas ruas ando a toa
Fazendo valsa no verão
Assovio e canto loa
Sol ardendo qual sertão
De repente azul se esconde
Chuva alaga e eu tô sem bota
Aperto o passo não sei pra onde
Carros enguiçados sem calota
Me defendo , procuro abrigo
Descendo escada do metrô
Tô na boa, de bem comigo
Meio nostálgico, meio retrô
Embarco junto a uma centena
Num vagão super lotado
Vidrado nos olhos da morena
Vou em pé de cabelo molhado
Minha camisa é malha fina
Quando molha gruda em mim
Etiqueta não ensina
Como fugir de temporal assim
Desembarco em qualquer estação
Outra centena a me acompanhar
Ainda molhado assovio refrão
Pra seguir meu caminhar
Mas a rua tá alagada
Sem bote pra atravessar
Perdi o metrô, a morena e a fala
Espero a rua esvaziar
A FALTA QUE A FALTA FAZ
( Marcos Assumpção)
Sinto falta de muitas coisas.
Algumas simples, outras nem tanto,
saudades da infância no quintal da casa,
da inocência tímida , do descompromisso.
Como é bom não ter preocupações...
Vontade de acordar e ser criança de novo.
Sinto falta dos amigos distantes,
daqueles que já se foram pro outro lado,
dos conselhos de meu pai e de sua presença.
Presença de pai nos dá segurança,
a gente vira super-homem ao lado dele.
Falta da mana , companheira de travessuras...
Falta do jogo de botão com avô.....
Essas ausências moram em mim, eternamente.
Também sinto falta de mais sorrisos estampados,
mais alegria nas pessoas e nas casas.
Pra mim, falta muita coisa ainda ;
falta fazer uma canção melhor ,
criar mais projetos , fazer mais shows,
gravar discos melhores dos que fiz,
passar mais tardes com minha avó
comendo bolo quente com café
ou broa de milho com manteiga ...
Pedir mais colo pra minha mãe,
jogar futebol e ver muitos filmes,
brincar mais com minhas filhas ,
dormir melhor e namorar mais minha mulher,
ir ao cinema e ficar à toa na Moreira César,
viajar à passeio, sair pra jantar
rever velhos amigos e fazer novos também .
Enfim, sinto falta de muitas coisas....
principalmente comer mais bolo quente!!!
O SILÊNCIO
( Marcos Assumpção)
Eu vejo o sol brilhar na velha estrada
O amanhecer no seio da canção
Ainda que nossos medos sejam os mesmos
O futuro agarra a nossa mão
Silêncio madrugando o pensamento
Minha alma espreita a flor da solidão
Ainda que se revelem os mesmos gestos
Insano é amar e dizer não
O silêncio faz a gente olhar pra traz
Desenhar a flor na poeira do chão
Ainda que entre desacertos e esperanças
Vento manso abranda o coração
Desaba a chuva na soleira do casario
Lua banha as águas do velho ribeirão
Ainda que distante seja o fim da estrada
Aprendo com o silêncio da oração
Sobram rimas que guardei em teus cristais
Ponteadas em esperança e coroação
De um amor que me foi sempre demais
De um grito em silêncio pelo amor que foi em vão
MIL PERDÕES
( Marcos Assumpção )
Mil perdões pela minha falta
eu só quis te preservar,
tava escuro a minha volta
só eu mesmo e o meu penar.
Andei ruas sem meio-fio
na corda bamba fui equilibrista,
não ouvi nenhum assovio
nem o passo do passista.
Mas lembrei da tua mão
afagando meu cabelo,
me desmanchei em choro vão
eu só queria o teu novelo.
Na penumbra do meu quarto
eu morri e tive medo,
minha dor é dor do parto
dilacera sem segredo.
Volta e meia você vem
com afeto confortar,
e eu doído sem desdém
emudeci o meu cantar.
E hoje ao ler o teu sinal
vi que nem tudo era escuro,
feito amor medieval
descobri a luz depois do muro.
Teu carinho é feito sino
de um navio a me buscar,
lá do fundo em desatino
vem à tona me levar.
Mil perdões mais uma vez
vento abranda o coração,
sou dia branco e teu marquês
movido a fé e a emoção.
E minha fé marcou diamante
pedra rara em meu altar,
amor de filho é radiante
eu só quis te preservar...
A FLOR DE FLORBELA – O CD , O SHOW
( Marcos Assumpção )
No mês de Março, estrearemos a turnê do novo cd A FLOR DE FLORBELA . Disco novo, show novo, banda relativamente nova. Daniel Santana, velho conhecido , tocando violões de aço e nylon, bandolim, banjo, violão dobro e slide ; Francisco Falcon tocando baixo acústico, baixo elétrico e violão , e que já participou de alguns shows meus anteriormente; Rogério Mesquita, integrante novo da banda que gravou as flautas e gaitas no cd . Esta é a formação que vai rodar o Brasil comigo na maioria dos shows , salvo os shows acústicos solo ou duo .Os ensaios ficaram bons, estamos acertando os últimos detalhes para ficar melhor ainda, e no decorrer dos shows, a banda vai afiando cada vez mais. Nada melhor que tocar muito com a mesma banda. O disco novo me deu muito prazer em fazer ,dará mais ainda, tenho certeza... usamos muitos instrumentos eruditos, renascentistas e barrocos junto com a base do meu trabalho que são os violões. Atmosfera sombria em algumas faixas, como era a maioria da obra de Florbela que escrevia sobre sentimentos tão comuns a todos nós mas com uma genialidade ímpar. Na verdade, este projeto nasceu há bastante tempo e pude com calma desenvolvê-lo durante os últimos 3 anos, durante as viagens e intervalos de um show para o outro. Gravamos de Janeiro à Dezembro de 2008, 1 ano exatamente, 17 poemas foram selecionados de um total de 24 musicados, e gostei muito do resultado final. O cd já recebeu, mesmo antes de sair, elogios de crítica e imprensa de alguns lugares que me deixaram orgulhoso, com uma sensação de que valeu a pena ter feito, ter ousado mergulhar na obra de Florbela e musicar alguns de seus poemas, algumas de suas muitas pérolas. É isso aí, estrearemos dia 14 de Março na cidade mineira de Itabira, cidade natal de Carlos Drummond de Andrade , justamente no dia em que por lá se comemora o Dia da Poesia!!!!
AMOR COLOQUIAL
( Marcos Assumpção )
Eu não quero e nem preciso
Do seu amor coloquial
Se quiser, me dê abrigo
Que não seja fraternal
Não é coisa de afeto
Amizade , algo parecido
Com você quero o mesmo teto
Tudo às claras, nada escondido
Amor bom é o verdadeiro
Papo cabeça é pra intelectual
Quero namorar é no celeiro
Pra espiar a lua e fazer lual
Pra ganhar beijo na boca
Já fui vento e temporal
Mas você me deixou de toca
Vestido de pierrot no carnaval
Apostei só no que vi
Entrei de sola, joguei duro
Mas no fim me arrependi
Do seu amor em cima do muro
Não dou conselho e nem previno
Mas quem avisa, amigo é
Se não me quer, já sai de fino
Arranjo outra, tenho fé
TRAIÇÃO MODERNA
( Marcos Assumpção )
Pensei num poema-canção pra fazer
Não tenho caneta, nem papel almaço
Não dá pra guardar , preciso escrever
Mas você não está, agora o que faço?
Sempre fiel, hoje me traiu
justo agora que eu mais precisava
sumiu de repente , meu mundo ruiu
achava que não, mas descobri que a amava
Idéias me chegam, todas se misturam
Não quero esquecer o que vem a cabeça
Não dá pra pegar, pra longe flutuam
Espero sua volta até que anoiteça
Quem dera que você aqui estivesse
sempre serena a me acompanhar
Mas por ironia , sem que eu quisesse
Sumiu na poeira sem se acanhar
Depois de algum tempo, já esqueci
Algumas palavras que inventei
Sem você por perto, só padeci
De memória fraca, mas bem que tentei
Volta pra mim, minha conexão
Minha internet , faz isso não
Caiu de repente , me deixou na mão
Já até me esqueci do poema-canção
POEMA CINZENTO
( Marcos Assumpção)
A chuva desaba, molha a trança
apaga a brasa , a fera amansa
a tarde avança , a nuvem dança
a vidraça espreita a poça mansa
A chuva insiste , o amor aumenta
saudade atormenta , a vida cinzenta
a alma sedenta , a espera intensa
o calor das mãos abranda e acalenta
A chuva acaba, transborda a esperança
brota asas , a quimera extravasa
a doce bonança , a infinita herança
a alegria adormecida na moça da trança
Mas a chuva volta, molda a sentença
esmaga a asa , alaga a esperança
a claridade balança , a saudade levanta
a lembrança cinzenta da moça da trança
PÁSSARO DA NOITE
( Marcos Assumpção)
Voa pássaro da noite
na madrugada da ilusão
almas caídas em açoite
na soleira da recordação
Batem vivas asas da saudade
trem partindo sem janela
amores na imensidade
corredores à luz de vela
Esquina de névoa fria
onde passa o vento norte
à espera escura e sombria
fere só no mesmo corte
Ecos de vozes no alaúde
gelam o olhar de quem ficou
desejos na plenitude
cicatriz de quem pecou
Tange solidão no bandolim
no canto agônico da sonata
abismo à beira do trampolim
velho amor em serenata
Ruínas do fundo de um rio
vem à tona num beirar
aflorando em desvario
sem estrelas pra mirar
Moradia é teu amor
casamata é solidão
pássaro da noite sem temor
pousa livre em anunciação
E anuncia o que há de vir
pois bem virá o que se perdeu
no teu canto lírico à servir
trás nas asas o amor que é meu
A FENDA
(Marcos Assumpção)
Qual a distância do teu silêncio pra minha angústia?
Tuas mãos em movimento acariciam
as minhas sutilmente, teu corpo,
outrora minha morada, leve infantilmente
se debruça sereno sobre a brancura
dos bancos do jardim até partir ,
deixando a transparência que emana do fim.
E eu, na inércia da vertigem abrupta
alcançada pela retina, amanheço no
labirinto da procura em vão pelo que
me fascina ,derramado na clareza
inerente do momento de velas ao mar,
enquanto teu corpo sumia ao longe,
até por completo se apagar.
Fez-se fenda em nosso amor, abriu-se
chão em nosso tempo.
Uma dobra se fez na vida e desdobrou
pra sempre a dor.
E nesta fenda não mora ninguém,
só eu mesmo e o que sobrou,
enterrado vivo em dissabor,
inundado na fenda do nosso amor.
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