A VILA

( Marcos Assumpção) 

 

ERA UMA VILA  DISTANTE  E PEQUENA

PRA LÁ DO BOSQUE, BEM PRA LÁ DO AFLUENTE

LONGE DA CIDADE, POR DETRÁS  DA NASCENTE

TINHA PASSARADA , CORETO E NOVENA

 

HAVIA POUCAS CASAS SIMPLES COM VARANDA

TODAS IGUAIS,CADA QUAL DE UMA  COR

DE TOM AZULADO, ESVERDEADO E RUBOR

NOITES COM SERENATA, LUA CHEIA E CIRANDA

 

MORAVAM POR LÁ A JOVEM MARIA INOCÊNCIA

ONOFRE TAMBÉM, QUE ERA  SEDUTOR E APRENDIZ

OS DOIS TINHAM  O SONHO DE SER FELIZ

SE AMAVAM  SEM MAZELA E SEM DOLÊNCIA

 

MAIS BELA QUE INOCÊNCIA POR LÁ NÃO HAVIA

O MAIS HUMILDE ERA ELE, SENÃO ONOFRE

ELA DE FAMÍLIA RICA, SOBERANA  E NOBRE

ELE TAMPOUCO NEM A CIDADE CONHECIA

 

TODA VILA SE ENCHIA DE ALEGRIA E FESTA

QUANDO VIA AQUELE AMOR PASSAR

ELA DE SAIA RENDADA E RELUZENTE COLAR

COM O JOVEM PLEBEU DE ROUPA MODESTA

 

ERA PRA SEMPRE, E HAVIA QUEM JURASSE

TANTO AMOR INUNDAVA E CAUSAVA EUFORIA

OS MAIS VELHOS DIZIAM QUE JAMAIS SE REPETIRIA

NEM EM CONTO DE FADAS QUEM ASSIM  AMASSE

 

PRIMAVERA SORRIA E  SE DEITAVA PELO CHÃO

PRA COLORIR O AMOR SAGRADO DOS DOIS

MAS ENFIM, O QUE VIRIA DEPOIS ?

O FUTURO ESCORRIA PELA PALMA DA MÃO

 

UM DIA DESFEZ-SE TODA A CANDURA

INOCÊNCIA ENCONTROU ENTÃO OUTRO ALGUEM

ONOFRE POR SUA VEZ NÃO ENXERGOU MAIS NINGUEM

DESABOU EM PROFUNDA E DEPRESSIVA AMARGURA

 

E A VILA POR SUA VEZ NÃO MAIS SE ALEGROU

ANTE TANTA TRISTEZA , SOFRIMENTO E DOR

DESATOU-SE O NÓ DE UM GRANDE AMOR

E O JOVEM MODESTO, SEM VERGONHA ,CHOROU

 

PARTIU MARIA INOCÊNCIA DE UMA SÓ VEZ

NUM FIM DE TARDE QUE NUNCA SE VIU

COM UM OUTRO AMOR QUE LHE SORRIU

NOS BRAÇOS AGORA DE SEU NOVO MARQUÊS

 

E O VENTO ESPANTADO PERGUNTOU  PRO SOL:

“CADÊ MARIA INOCÊNCIA DA SAIA RENDADA?”

FOI EMBORA E, ACREDITE, NÃO DISSE NADA

NUMA TARDE FRIA DE NOVENA E ARREBOL

 

MAS NÃO TARDOU PRA INOCÊNCIA , CHEGAR

O PRANTO PELA SAUDADE DO ETERNO APRENDIZ

LARGOU O MARQUÊS PORQUE ERA INFELIZ

VOLTOU PRA VILA PRO AMADO ENCONTRAR

 

MAS QUAL SURPRESA INOCÊNCIA SE DEPAROU

COM A NOTICIA QUE POR ELA  ESPERAVA

NÃO ACREDITOU NO QUE SE ANUNCIAVA

MORREU ONOFRE QUANDO ELA O DEIXOU

 

MORREU DE AMOR, DESGOSTO E SOLIDÃO

VAGANDO À MÍNGUA PELA VILA PEQUENA

SOB OS OLHARES DE TODOS, DIGNO DE PENA

ESPERANDO POR INOCÊNCIA NUMA ESPERA EM VÃO

 

DESABOU INOCÊNCIA ANTE TAMANHA DESGRAÇA

SEM PERNAS OU CHÃO PRA LHE SUSTENTAR

DEFINHOU ANOS À FIO A SE CONDENAR :

“TAMANHA DOR INFINITA  SEM DÓ ME ESTILHAÇA”

 

NUNCA MAIS MARIA INOCÊNCIA SORRIU

SE TRANCOU NA MESMA CASA DA VILA PEQUENA

NÃO OUVIU MAIS PASSARADA NEM MESMO A  NOVENA

SÓ LEMBRAVA O AMOR QUE DA VIDA PARTIU

 

E A VIDA  POR ELA PASSOU COMO O VENTO

SOPRANDO PRA LONGE SEU ÚLTIMO INSTANTE

NUMA TARDE DE ALARANJADO ARREBOL  VIBRANTE

ADORMECEU PRA SEMPRE NA ETERNIDADE DO TEMPO

MADRUGADA

( Marcos Assumpção)

 

    São 1:20 da manhã e cá estou eu com a velha insônia de sempre, escrevendo este texto. Já me acostumei com ela – a insônia – e acho até que ela é útil, me ajuda em muitas coisas. Na maioria das vêzes, acabo fazendo música, escrevendo, lendo, vendo filmes. O dvd que gravei foi concebido durante uma madrugada em claro. Escolhi o repertório e defini muitas coisas, como concepção e arranjos de algumas músicas. E hoje, passados 7 meses daquela madrugada, estou vendo pela décima vêz – ou mais – a prova final do dvd antes de ír pra fábrica ( atrasou ) , em mais uma madrugada em claro. São muitos detalhes que precisam ser vistos e revistos. Eu aqui e o pessoal da produção na casa deles , todos atentos , tendo que ver minuciosamente cada cena, menu, áudio, legenda, botão pra trocar de tela, páginas, edição final, enfim, tudo... acho que até já enjoei, não vou ver uma única vêz depois de lançado... aliás, nunca ouço nada meu depois do lançamento. Já estou pensando no próximo disco e com certeza a madrugada vai me ajudar novamente.

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